Cinema dos povos: centenário de Apolonio de Carvalho

Centenário de Apolonio de Carvalho. Cinema dos povos. Cine-debate: Documentário Vale a pena sonhar. Brasil, 2003. 74 min.

Será neste sábado, 28.01.2012, às 15h, no Espaço Cultural Mané Garrincha.

Rua Silveira Martins, 131, sala 11, Sé, São Paulo/SP



Vale a pena sonhar retrata os sonhos e utopias de uma geração de homens e mulheres que dedicaram suas vidas à luta pela revolução, tendo como fio condutor a história de Apolonio de Carvalho. Sua luta, sem fronteiras, junto aos republicanos na Guerra Civil Espanhola, na Resistência Francesa contra o nazismo e no combate à ditadura militar no Brasil nos anos 60, assim como fatos da vida cotidiana e familiar de militante de esquerda que assina a ficha número 1 de filiação do PT.

Convite: Cine-debate (Documentários latino-americanos no Espaço Garrincha)

Será nesta quarta-feira, 11.01.2012, às 19:30, no Espaço
Cultural Mané Garrincha.
Rua Silveira Martins, 131, sala 11, Sé, São Paulo.


Sessão interativa do Cinema dos Povos. Dessa vez nossa proposta é um pouco diferente. O bate-papo depois da sessão está mantido. Mas o/os documentário/s serão escolhidos na hora pelos presentes. Convidamos todas/todos a comparecer e trazer seus documentários sobre Nuestra América, a Pacha Mama



SARAU NO GARRINCHA (último de 2011)

      Gurupá e poemas do vento. É na garupa do vento que o poema vem montado. O cavaleiro Júlio César, prata da casa, vai apear pra um bate-papo amigo, brindando-nos com a poesia deste seu primeiro livro.
         Para quem não sabe, o autor começou por coser palavras e delas fez bons versos. Deu pra coser versos, e os poemas foram se conformando. Aos poucos, feito céu estrelado, feito lombo de boi malhado, foi tecendo uma trajetória de vida que não se envergonha de ser. Por isso mesmo, tomando partido, Júlio César desdenha hoje dos homens e suas estatísticas. Por isso mesmo, armado de poesia, ele pode dizer aos homens do dinheiro e negócios arruinados: bem feito!
          Para quem, como nós, já teve o prazer do contato com seu trabalho sabe que esse poeta, ateu, tem crença verdadeira na brincadeira séria do jogo das palavras. Que ele crê mesmo é na sinceridade da amizade que repele cifrões.
         Neste seu primeiro trabalho, teremos de tudo um pouco: da labuta do passarinho contra a vida petrificada na grande cidade à Nona e seus recortes do passado na Itália distante. Da peleja constante contra os vingativos e tenebrosos homens de Deus, cujo amor deixa o próximo padecer nas calçadas até a poesia solidária à Palestina agredida pela mão inimiga, sionista e iankee. Mas ele não pára por aí, por isso seus versos sabem rir da monótona monogamia, coisa que um dia o poeta chegou a acreditar. Que fosse só isso e já nos daríamos por satisfeitos por uma amizade assim, mas ele exige mais de si mesmo e lança seu canto poético como profissão de fé na luta contra toda desigualdade social. Daí uma antiga e necessária mania de abrir caminho à força, levando com ele uma certa foice e um certo martelo...
Do de comer e do de beber
        Mas não pense você que só a alma com beiços lambuzados de poesia irá se fartar nessa noite de gente descompromissada com horas patronais, pois a morada da alma também terá seu alimento: um delicioso caldo verde. Agreguemos a isso um bocadinho de bebes. Porque nem só de caldo, pão e poesia viverão o homem e a mulher emancipados.
Espaço Cultural Mané Garrincha
Quando?  Sábado, 17 de dezembro de 2011, às 18h.
Endereço: Rua Silveira Martins, 131, sala 11 – metrô – Sé, centro de SP.

Um taquito para o dr. Sócrates

Magrão, somos homens e mulheres de um Espaço Cultural que leva o nome de um passarinho inútil e feio. Não temos corpos malhados e inchados com silicone e anabolizante, e nem queremos ter. Não temos patrocínio do Estado e de empresas, e nem queremos ter.  Você não deve ter ouvido falar da gente, mas nós falamos muito de ti, e você disse muito por nós: quando defendeu a ilhota que resiste ao império, quando se recusou a furar a fila do transplante...
Um dos nossos te viu jogar ao vivo nos estádios, e confessa que tentava te imitar nos terrões da periferia. Ele nos fala da tua elegância e frieza, daquele gol contra a Itália que passou no único vão possível, daqueles calcanhares (taquitos), um destes contra a Argentina de Maradona. Outro dos nossos só se lembra dos fogos de 1982 e das lágrimas nos olhos dos mais velhos, é a primeira lembrança que ele carrega da vida. Os demais nasceram quando você já estava distante dos gramados.  
Somos filhos de um país sem terra. Sem terra para plantar porque o agronegócio, seus jagunços e suas grilagens nos expulsaram. Sem terra para correr atrás de bola porque a especulação imobiliária fez crescer edifícios sobre nossos campos de várzea. Somos filhos de um país transgênico, com seus agrotóxicos e seus jogadores formados nas escolinhas de futebol, tudo com total prejuízo qualitativo e estético.
Contra o capitalismo erguemos os braços e cerramos os punhos, como os Panteras Negra, Múmia Abu-Jamal, o centroavante Reinaldo, você, Tommie Smith, John Carlos e tantos outros. Despejos da Copa, privatizações, agronegócio, especulações imobiliárias, guerras imperialistas... Não passarão!
Magrão, nosso Espaço Cultural chama-se Mané Garrincha, mas poderia chamar-se Espaço Cultural Sócrates Brasileiro, sem prejuízo da irreverência, do talento, da genialidade e da rebeldia. Como seria uma linha com Sócrates e Garrincha? Um passe de Sócrates para Garrincha?  Quiçá verso de Carlos Drummond com rima de João Cabral. Cada um que imagine.
Doutor, nós vamos jogar uma pelada com nossos irmãos anarquistas, comunistas e quem mais aparecer. É a Copa Sócrates Brasileiro. Homens e mulheres no terrão e na mesa do bar, com a bola no pé e o copo na mão: pela homenagem, pela diversão e para empunhar nossos sonhos.
Espaço Cultural Mané Garrincha,
São Paulo, dezembro de 2011.

PS.: Domingo passado perdemos o genial Sócrates Brasileiro. Para o próximo domingo convidamos todas/todos para disputar a Copa Sócrates Brasileiro. Homens e mulheres com a bola no pé e o copo na mão. Estão todos convidados. Tragam tênis, instrumentos musicais, calção, canções, poemas... Que venha quem quiser jogar, quem quiser tocar, quem quiser curtir... Com sol ou com chuva, jogaremos. Uma pelada com anarquistas, comunistas, trabalhadores, crianças...   

Será no próximo domingo, 18.12.2011, às 12:30, na Rua Dona Genoveva, 224 - Chácara Califórnia. Esquina da Radial Leste com a Av. Aricanduva. 300m do Metrô Penha.


Esperamos por todos.

Derrubar os muros da USP

- Para o movimento estudantil e demais lutadores -  

Há quem tenha medo que o medo acabe. (Mia Couto)

A violência no campus tem sido o pretexto para a implementação de políticas ditas de segurança que culminaram na instalação do aparato repressivo da Polícia Militar, dentre outras medidas. A existência de profundos problemas sociais – que exigem um posicionamento coerente com o caráter da universidade pública – tem sido camuflada e manipulada por uma "mão invisível" que oferece como "solução fácil" a segregação e a repressão através de muros, feitos de concreto ou não.

Nos últimos anos os espaços de discussão e convivência coletiva dentro da universidade têm sido reprimidos e esvaziados, isso sem falar do fechamento da universidade para a população em geral e do entorno. O tripé constituinte da produção acadêmica anda manco e a extensão universitária vai caminhando em direção às fundações de caráter privado. Isso demonstra a lógica privatista que vem vigorando e usurpando o espaço de conhecimento e transformação social que deveria corresponder à universidade pública.

Criam-se mais muros que geram mais violência, inclusive manifestações fascistas no interior da universidade e na mídia, ameaçando o modo de nos organizarmos socialmente. Tudo isso para facilitar a apropriação privada do conhecimento e intensificar a inserção da lógica capitalista na educação, onde o alvo do momento são os espaços que ainda oferecem resistência organizada: movimento dos estudantes e trabalhadores. Isso se revela concretamente pelas perseguições que muitos alunos e sindicalistas vêm sofrendo. Tal dinâmica, no entanto, não está apartada da sociedade, como mais um muro que querem construir setores da mídia, porta-vozes da classe dominante. A criminalização dos movimentos sociais ocorre em toda a sociedade, no Brasil e no mundo, como consequência da ganância do capital em expandir suas já desgastadas fronteiras. A luta dos estudantes da USP é mais um enfrentamento que se conjuga com a luta de estudantes e trabalhadores do mundo todo por educação, justiça social, condições dignas de trabalho e vida, contra o poder destrutivo do capital. Os muros que nos isolam de nós mesmos são construídos por essa ideologia que quer sugar tudo o que é vivo e criativo no humano para a contínua geração de lucros.

Temos que dar um basta nisso e começar por destruir os muros que nos aprisionam dentro do espaço da universidade. Destruir os muros que impedem a população de adentrar no espaço de conhecimento que deve ser construído e apropriado por todos, para o bem comum da sociedade. Destruir o muro que nos separa da São Remo, onde residem trabalhadores e jovens que constroem a universidade e que, no entanto são perseguidos e criminalizados por serem pobres. Destruir o muro da FUVEST que restringe e elitiza o acesso à universidade.

Propomos um ato de derrubada do muro entre a USP e a São Remo como marco inicial dessa jornada de lutas contra todos os muros que nos aprisionam dentro e fora da universidade!

São Paulo de Piratininga, novembro de 2011
Espaço Cultural Mané Garrincha

USP, São Remo e o Muro da Vergonha

- Para o Reitor e seus sócios, uma gente que fez da educação um bom negócio. Negócio assegurado pelas armas da lei. -



Buraco no muro da USP.
Foto de Leonardo Sakamoto.
Senhores de cérebros amanteigados, temos algo a vos dizer: esse muro vai cair!

De fato, não lamentamos a sorte dos senhores, de vossos carros, assim como de vossas privacidades. Há carros demais por essa cidade. O espaço público do conhecimento não pode continuar a operar como espaço particular de cabeças ocas, como as que os senhores, orgulhosamente, ostentam e que insistem em perpetuar em vossas crias. Vossos dias estão contados!

Sabe-se, desde tempos idos, que os dois lados de um muro expressam coisas distintas: do lado de dentro, o medo, do lado de fora, a curiosidade. A curiosidade tem alma alpinista. O medo agiganta-se. O muro revela seus limites...

Ora, Roma caiu junto com seus muros e seus medos. Berlim Oriental, que pegou emprestado dos senhores o mais frio dos monstros[i], o Estado, ruiu também. Por que só os senhores e vosso amo, os EUA, bem como seus amigos sionistas, insistem em cultivar muros?        Vejamos o que se passa com o muro protetor de ricaços estadunidenses frente a um México vilipendiado e saqueado pelas ingerências históricas dos yankees em seus domínios, senão a cultura do medo e da morte como negócios.

Tudo bem é certo que estamos de acordo com os senhores quanto ao solo estadunidense abrigar muitos chicanos, como costumam grunhir vossas bocas midiáticas. Mas, os senhores já não nos acompanham quando afirmamos, sem papas na língua, que só a mão de obra barata latino-americana e a droga que adentra aquelas terras é que poderão continuar a embalar o sonho americano. E mais, se lá há superlotação de mexicanos, no México há superlotação de fuzis provenientes dos EUA. Drogas e armas, para alegria capitalista, desconhecem a seriedade dos muros. Muros que hoje os detratores do rei Davi covardemente constroem, não por temer ao gigante Golias, mas por pavor às pedradas de crianças palestinas. Senhores, até quando vossos medos continuarão a murar este planetinha tão maltratado por vossas ganâncias?

Já no caso da USP a história é bem outra. Primeiro os senhores se precaveram construindo seu apartheid do saber, pomposamente chamado de vestibular, um funil excluidor de pobre em espaço público. Não contentes, muraram a universidade e cultivaram a indiferença aos pobres ao redor dessa instituição. Senhores, não há mais vacas para tossir! Esse muro vai cair! E cairá por uma simples questão: as RODAS da História já não podem continuar a girar para trás. A ocupação abriu a brecha necessária no muro de vossas vergonhas. ESSE MURO VAI CAIR!



São Paulo de Piratininga, novembro de 2011
Espaço Cultural Mané Garrincha


[i] Palavras de um certo Frederico.

Amazona academicus

É uma espécie de papagaio eloqüente. Fala mais e melhor do que os outros papagaios. É um animal capaz de repetir inumeráveis frases, de Sócrates a Spinoza, passando por Gilberto Freire e Lévi-Strauss, sem denotar nem conotar nenhum palavrão jamais. Seu vocabulário é extenso e erudito. Sabe muito bem outras línguas, ou apenas o razoável inglês, qual exibe muito galhardamente quando oportuno é. Ao ser domesticado ele anda exemplarmente ao lado do dono, sem arriscar vôo, pois que de tão obediente não ousa fuga.
No inicio de sua vida é somente um pequenino papagaio, recém saído da casca e que não sabe para onde voar. Sua sorte é deparar-se com membro adulto de sua espécie. Este, com seu lindo penacho e seu extenso palavreado repetitivo, educará aquele filhote, num processo conhecido como “iniciação científica”. Trata-se do momento em que o filhote aprende a gesticular, andar, sentar e falar como se de fato pensasse. Aprende a simular inteligência, que é a arte de citar os grandes pensadores. Terminado esse processo, o recém formado acadêmico seguirá sua vida, jantando papinha pronta, em peculiar companhia de outros animais, como porcos, raposas, cobras e cães de guarda.
É importante lembrar que a papinha pronta é o alimento básico dessa espécie, definindo outro de seus principais comportamentos, o hábito de sentar-se à mesa. O gosto por papinha pronta desenvolverá no papagaio acadêmico a faculdade de sentar-se à mesa como um homem civilizado, afirma o professor Dicson Grinspan, da Universidade de Óraios.   
Em seu livro de maior sucesso, Aves Delatoras, o renomado papagaiólogo, Herman Zuristiger, também comenta algo a respeito do assunto:
Nos jantares, ele (o papagaio acadêmico) costuma sempre exibir sua longa lista de palavras referentes à verdade ou a qualquer coisa, como as civilizações da América pré-colonial. À mesa não sabe bem onde se sentar. Prefere o lado esquerdo como o direito, mas as cabeceiras também não lhe desagradam. Na verdade, não sabe o que significa lado esquerdo, lado direito, ponta ou outra parte de um todo, apesar de saber proferir as palavras “esquerda”, “direita”, “ponta” e “outras partes de um todo”.  
O papagaio acadêmico é prolífero e não está em extinção. Todavia, sua caça ainda não é permitida, pois as leis referentes à caça de papagaios acadêmicos são comumente elaboradas por papagaios acadêmicos. 
Marcos +